segunda-feira, novembro 22, 2010
O Outro
Uns dos outros
Alguns perdidos
Outros cada vez mais raros.
Multiplico almas
E o que resta de mim nos outros?
Apenas um eu
Entre tantos esquecidos.
A pressa do meu fim
No espelho que o outro observa.
E quando eu for ontem
Que outro recordará?
Leleco.
quinta-feira, novembro 18, 2010
Denise, gostava de meninas
Após meia-noite, fui varrido junto com outros bêbados para fora do bar.
"-Ordens do prefeito", ele disse.
Implorei pela quarta dose de vodka (era preciso espantar o frio).
"-Tudo bem, mas vá beber do outro lado da rua", disse o garçom.
Sou resgatado por duas amigas de um amigo num carro preto. Uma era psiquiatra, a outra não sei (ou não lembro).
Fui parar no loft da psiquiatra e sou recebido por um cachorro.
Ela diz: "Ele só entende inglês!"
Pensei, segurando o copo plástico com vodka: "Que diabos estou fazendo aqui? Desde quando cachorro sabe línguas?" Mas preferi me calar...
A psiquiatra estica duas fileiras de pó sobre a mesa enquanto enrola uma nota de vinte reais.
"- Vocês querem?"
"- Não gosto de farinha. Só uso do preto!" - respondo.
"- Ah, tem aqui também!" (A outra mulher vai buscar o baseado enquanto a psiquiatra enfia o nariz no pó).
Era só uma ponta. Acendo assim mesmo e o saboreio (e quase queimo o nariz).
Em seguida, invento uma desculpa e vou embora do loft. Subo, novamente, a Rua Augusta à procura de uma balada rock`n`roll.
Encontro uma chamada : "Astronete". Rockzinho bacana e não estava muito cheio o lugar.
Neste momento, já estou completamente alcoolizado e levemente sob efeito da erva.
Subo numa cadeira, levanto uma cerveja e grito junto com a canção "I wanna be sedated!"
Na fila do banheiro, encontro Denise. Mulher com um sorriso bonito e simpática. Pergunto se o banheiro é coletivo. Ela responde que sim e percebe que eu não sou dali.
"-Você é carioca?", ela pergunta.
"- Sou e não sou!"- respondo.
"- Como assim?"
"- O Rio é minha mulher e Minas é a minha mãe!"
Conversamos por mais alguns minutos e ao ser perguntado o que eu faço, respondo que sou poeta.
Denise pede que eu faça uma poesia para ela.
Respondo que só faço caso ela me convença que merece.
Denise agarra uma menina e arranca um beijo interminável, enquanto eu observo.
Quando elas se afastam, Denise pergunta:
"- E aí, convenci?"
"- Posso mijar antes de você?" - respondo.
Já são mais de quatro da manhã e resolvo ir embora. Desço a Rua Augusta ao encontro do carro.
Ao passar em frente a um puteiro, sou convencido pelo segurança a entrar.
"-Vinte reais + quatro cervejas!", ele diz.
"-Você merece a tal poesia!", respondo.
E entro no puteiro. O lugar é bem escuro e tosco. As putas são horrorosas, algumas faziam apresentações de Pole Dance e outras conversavam com alguns "clientes".
Uma se aproxima e pergunta:
"-Você gostou da dança?"
Digo que sim.
"-Você é do Rio?"
Penso: "- Que merda, todo mundo me pergunta isso!" e balanço a cabeça afirmando.
Ela se afasta ao perceber que eu não queria nada além de observar.
Eu acompanho algumas apresentações das putas penduradas num poste tomando as cervejas que eu tinha direito.
Acendo um cigarro com uma delas e converso banalidades da vida. Enquanto uma outra, que se encontrava drogada, tentava me agredir com palavras. Já eram quase seis da manhã.
Saio de lá com uma única certeza: "Que falta me faz o Rio!"
Volto pra casa e durmo.
Amanhã não se sabe...
Leleco. (Para Henry Charles Bukowski)
terça-feira, novembro 09, 2010
Em órbita
Só eu e você
Sem gregos e troianos
Se não agora, quando?
Um mês em Marte
Simone de Beauvoir e Sartre
Amores necessários e contingentes
Ou qualquer coisa que ainda seja existente.
Uma semana em Mercúrio
O tempo curando as feridas
Uma canção band-aid
Assoprando a própria mordida.
Leleco.
sexta-feira, outubro 29, 2010
Agora que passa
Onde o tempo se confunde
Na vida que envelhece em meu rosto.
Os horizontes de onde vim,
Já não são tão belos
Quanto a saudade do agora que passa.
Eu não sei mais o que escolher
Entre a idéia e a falta.
No último gole dessa cachaça
A lua soletra o medo do torto poder ser reto também
Afinal, "libertas quae sera tamen".
Leleco.
quinta-feira, outubro 07, 2010
(Amar)go
Na agonia vertical da vida.
Enfeito enganos no chão que me espanta
Dos que partem sem voltar.
A loucura é curva sem cura!
Onde não dormi meu último sono?
Há bueiros e bucetas respirando desespero
No sol que é solidão.
O nada imagina o não ser
E derrete a dúvida em mim
Da rotina que atrai a rotina
E envelhece a poesia.
Qualquer coisa acontece
Sobre o nunca que se inventa
E a certeza da hora marcada
No silêncio de minhas palavras.
Leleco.
terça-feira, outubro 05, 2010
(Es)trago
Esse é o meu dom!
Insatisfação garantida ou o seu sorriso de volta!
Quer experimentar?
Longe de feliz para sempre
Cai a noite e o esquecimento
E agora você sabe
Que minhas asas esfarrapadas
Nunca foram de anjo.
Leleco.
quarta-feira, setembro 29, 2010
Nem tudo que gira é sol
E atirei vogais.
Nem tudo que gira é sol
Nos jardins de mim.
O céu me condena em seu azul
E nada é tão certo
Diante do soluço das horas
Quando esqueço que sou só.
Preservo qualquer excesso
Alimentando um sorriso sem jeito.
Hoje confuso
Na saudade de acender meus delírios noturnos.
Leleco.
domingo, setembro 26, 2010
Apenas eu
Gritando de um jeito estranho: "C`est la vie!"
E chorou no quintal dos esquecidos.
Em luzes de sombra
Procurou por passos
Ou algum sentido que a faça existir.
Vestiu a saudade de tudo
Na avenida dos desencontros
E quase remendou o seu surto.
Inventou sorrisos
E não se reconheceu.
Era o tempo culpado
Ou apenas eu?
Leleco.
sexta-feira, setembro 10, 2010
Chansons de la peur
Era o mesmo homem sentado diante da vida. Nada parecia ter mudado após trinta anos. Falava de amor em línguas estranhas, desafiando o falso saber da juventude. Virou a última página do desejo e riu de si mesmo sem nenhum sentido. Pagou o alto preço de ser escritor.
Anotou num papel pequeno que nem todo sexo é cristão e fingiu esquecê-lo no banco da igreja. Ingenuidade geminiana daquele homem em acreditar que só se morre uma vez. Prometeu parar de fumar e começar uma dieta na semana que vem. Algumas pessoas precisam, realmente, acreditar nisso.Esqueceu como se escreve 500 em algarismo romano e pensou:“- Que diabos está havendo comigo?” Dirigiu sem usar a marcha ré, sentiu frio embaixo do sol, lembrou do seu filho e como chorou. E quis voltar a pé.
Inventou a fraqueza só pra se sentir mais forte e assim continuou... Acendeu alguns amores e quase casou com a solidão. Bebeu pra espantar a timidez e como cantou. Percebeu os olhares e alguns adjetivos, mas ganhou um delicado beijo na testa.
Tentou dormir, tudo rodou, quis vomitar e pensou: “Será que amanhã vai chover?”
Leleco.
quarta-feira, setembro 08, 2010
Avesso
Serei de mim a parte que restou.
O ar irrespirável do lado de fora
Nas primeiras horas da vida.
Modernas maravilhas antigas
Exibem no avesso do hermafrodita
A neblina apagada de sua rebeldia.
Ainda posso contrariar a teimosia fingindo esperança?
Nada pior que esse incômodo neurônio
Acordado às quatro da manhã
Embranquecendo meus cabelos
E cochilando os meus sonhos.
Leleco.
segunda-feira, agosto 30, 2010
A idade do nunca mais
Aponto meus prantos.
Impotente inconsciente
Na dúvida do desencontro.
Traço o que fui
E durmo além da agonia de nascer palavra
No mais imenso dos riscos.
Sete amores amargos
No aroma que anuncia a partida.
Estranhamente, devoro o passado que o diabo amassou
E acordo abraçando as cinco pontas.
Depois dos trinta,
Disfarço a insegurança e o medo
No espelho que revela a idade do nunca mais.
Leleco.
sexta-feira, agosto 20, 2010
Um homem chamado Ninguém
Além do que você já sabe ou deveria.
Eu não uso loção pós-barba
Aliás, eu nem faço mais a barba.
Calculo o amor pela ausência
E cada qual se encontra só em sua suficiência.
Eu não acredito em Deus nem no Diabo
E eles também não devem acreditar em mim.
Duvido quase sempre do que penso
Afinal, existo, logo penso.
Derramo vinho no meu ex-tômago
Armo a bomba!
E tudo queima dentro de mim.
Você ainda quer que eu sorria
E ofereça alegria?
Leia o meu silêncio, finalmente, bem educado
Todo psicólogo é psicologicamente pertubado.
Eu não creio em santos e sábios,
Só confio na palavra simples e pura da puta.
Antes de morrer,
Toda sabedoria é nula.
Respingo verdades quando convém,
Engano o vazio alimentando um bêbado equilíbrio,
Esqueço e sou esquecido pela banalidade coletiva.
Todo mundo diz a mesma coisa:
"Poesia não vale um vintém!"
Leleco.
sexta-feira, agosto 13, 2010
Insetos Incertos
Por que ainda escurecem minha poesia?
Eu grito percevejos do eco
Diante desse espelho do absurdo.
Aqui, ausente de tudo,
Arrasto o tempo por descuido
E espero alguma esperança
Já que estou face a face com Deus
Vendo que sempre tive razão.
Exijo a urgência da vida
Sufocando a mim mesmo
E desafio qualquer mosquito
A compôr uma sinfonia em meu ouvido.
(Pode ser Bach, pode ser Gonzagão)
Conservo meus pecados
Na falta de pesticida.
Decifro o sorriso dos insetos insanos
E lá se foi mais um ano...
Leleco.
terça-feira, agosto 10, 2010
Invisível
Dos quais só um
Abandona o outro lado.
Vinte segundos virado ao avesso
E me torno vários.
Alguém aceita o meu buquê de neurônios?
Ao que tudo indica,
Continuo vivo nesse corpo escorregadio.
Desvio vadio do equilíbrio
Nas quedas que eu não arrisco.
Agora pareço um quadro qualquer de Renoir
No meio desse silêncio branco
Querendo ser tudo e aceitando não ser nada.
Esquecido na poesia não lida de suas virgens filhas
Ah, como eu queria ter escrito a Bíblia...
Leleco.
sexta-feira, agosto 06, 2010
A Mariana que me encanta

Durante toda a minha existência, esperei libertar borboletas no aquário. Hoje é o dia! Hojé é o dia dela! Hoje é o dia M.! Mariana, Margarida, Marga-linda... a invenção da vida carrega consigo uma sutileza em cada sorriso.
Provo, pela contraprova, que o amor produz por si próprio uma vontade infinita de sentidos. O tempo não pára, mas resistir é preciso! Já dançamos em pontas de cigarros, bebemos litros de saudade, construímos pontes e estradas que nos levaram para a cama.
Mariana ama, canta e encanta cada fração do meu dia. É o meu pensamento constante, luxo e lixo de minha poesia. Mariana é a busca incansável e apaixonada do que é ser e que se define justamente pelo encontro da força que escorre do seu olhar.
Depois dela, nada será novo. Arrisco ao máximo a felicidade, abandono tudo o que me dá segurança e mergulho nesse desconhecido. Mariana é o meu novo a cada linha, a cada beijo e a cada simplicidade com que reinventa nosso início a cada manhã.
Então, é tudo contra nada!
Trata-se de uma outra vida, e ela me devolve a velha juventude indestrutível.
Deixai florir espartilhos, aventuras, canções, poesia, casa, estrelas, filhos e migalha.
Afinal, o amor não volta para pedir razão.
Feliz Aniversário, Mariana!
Amo-te completamente!
Daqui até depois do sempre!
Leleco.
terça-feira, agosto 03, 2010
A gosto da leoa

No sete que se completam dezenove,
Nada deve permanecer imóvel.
Outro nome em outros batismos
No teu mar de Agosto.
As sobras do tempo e a vida crua
Deslizando pelo teto empoeirado do Empório.
Entre Marte e Mercúrio,
Mergulho no gim todo o meu orgulho.
O eu do meu bem,
Anjo decaído de uma fé cega
Plantando e implantando
Sorriso em pedra.
Viva nossa geografia
No azul céu do lençól.
Dormindo o amor em meu sonho
No mês do cachorro-louco.
Acordo cantando baixinho:
"Gosto muito de te ver, leãozinho..."
Leleco.
quarta-feira, julho 28, 2010
11:56 pm de um futuro qualquer
A distância que a balança equilibra?
Tantas rotas quase roucas
Do tempo que é solidão.
As paredes soluçando o infinito
Desde o fim até o princípio.
Pelas mortes que morri,
Deus precisa de mim para existir.
Um luto nos relógios
Pra esquivar essa insônia.
Tinta que não chora nunca
No verso prisioneiro de sua crônica.
Era apenas eu embaixo do seu lençól?
Leleco.
terça-feira, julho 27, 2010
Tempo são
Pupila
Cada um
Todos
Aquilo
Outros.
De repente
É preciso
Grito ruído
Venta
E ninguém lamenta.
Desordem
Dilúvio
Delírio por delícia.
Mímica mistura de mim
Isso não é doença
Todo capeta toca punheta.
Tempo são
Substantivos
Substância em solução.
Não vivo sem
O que o fogo mantém.
No fundo flutua
A solidão da puta
Antes de tudo
Ignoro os atributos.
Vagabundo poeta
Atira palavras, nunca pedra.
E diante da idéia
O bêbado repete La bella.
Vaso vazio
Casaco de frio
Amor de margarida
Ninguém duvida.
Leleco.
segunda-feira, julho 19, 2010
Melhor que cem
E faz renascer no outro
A antiga definição do amor.
Acima de toda esperança,
Encontro o futuro
Na certeza do beijo.
E no coração, meu bem
Não cabe mais ninguém.
Dobro a falta
Nesse nó de nós dois
(Meio-caminho entre a presença e a ausência).
Vento silencioso do abraço
Na despedida dos meus passos.
Desfio a vida
E repouso sobre sua barriga.
É, pouca gente sabe, meu bem
Que um grande amor é melhor que cem.
Leleco.
terça-feira, julho 06, 2010
Bendito

Três vezes bendito
Como se silêncio fosse
Trocar o dito pelo não-dito.
Pedro pescando modernidades
Na divina festa dos homens.
Despertando o riso dos deuses
Escondidos no bolso do padre.
Ela se estica
E tudo estala nos corredores de minha cabeça.
Descubro a mulher de minhas mil vidas
Entre a tontura e a ressaca.
A saudade que corta
É a aliança da próxima estação.
Bendito seja nosso delírio!
Leleco.